É meu!

É meu!
Pare com o roubo de conteúdo!

19.11.06


Pequena aldeã I. Encontrei esta garota numa pequena aldeia nos arredores de Pequim, em Outubro de 1987. Envergava um casaquinho de malha vermelha de recorte tradicional. O vermelho é associado à felicidade e é comum, na China, vestirem as crianças com essa cor.
Os traços fisionómicos da garota são típicos dos chineses Han do norte: cabelos de um negro profundo, olhos suavemente rasgados, cara cheia, pele de um tom lunar.
Encontrava-se frente a uma das casinhas da aldeia, construídas em tijolo e argamassa, sem qualquer revestimento ou pintura, como se vêem muitas no país. As cinco fotos seguintes foram tiradas nessse mesmo dia na mesma aldeia.


Pequena aldeã II.


Pequeno aldeão III. Este perdido no mundo envergava uma vestimenta muito comum nas crianças de então: a farda do Exército de Libertação. Na foto anterior, a garota também se veste de idêntico modo.



Pequeno aldeão IV.

Pequeno aldeão V. Com uma pasta de desenho a tiracolo e um olhar penetrante, será ele um dos novos artistas da China?

Pequeno aldeão VI. O chapéu de papel era a sua glória naquele dia.


Lailai viajava com a sua mãe, no comboio de Pequim para Changzhou, na classe "cama dura", compartimentos com seis beliches cada. Como se vê, tinha uma relação de á vontade total com a câmera fotográfica. Fevereiro de 1988.

Duas meninas cazaque em frente da sua tenda, no acampamento em Baiyanggou, Pastagens do Sul, Turquestão chinês, em Julho de 1990.


Este garoto excepcionalmente bonito encontrava-se no topo da Montanha dos Mil Budas, em Jinan, província de Shandong, em Abril de 1990. Fiquei tão espantada com a sua compleição clara, o seu cabelo de um castanho rico e levemente ondulado, que perguntei aos pais, um casal de aspecto muito vulgar, se ele pertencia à etnia Han, como mais de 90% dos chineses, e não a uma das etnias minoritárias. Como qualquer chinês Han, a mãe pareceu ofendida. Claro que era Han!
Decerto orgulhosos daquele cabelo, os pais não o rapavam, como faziam invariavelmente aos filhos rapazes. Este comprimento de cabelo era mais frequente nas meninas, mas as calças do miúdo apresentavam uma fenda entre as pernas, como era costume com as crianças, e toda a gente podia ver que se tratava de um menino. Ele segura na mão uma garrafa de qishuir, gasosa de laranja que, com a Coca-Cola, constituía o refresco mais popular na China de então.

Em pleno bairro comercial de Xidan, em Pequim, descobri um bebé vestido magnificamente à moda dos Qing, de barrete com trança e tudo. Ninguém parecia dar-lhe especial atenção até eu começar a fotografá-lo. Então os transeuntes começaram a parar, curiosos sobre o que podia despertar interesse a uma estrangeira. Rodearam-nos a ambos, rindo a bom rir. A certa altura, a mãe aborreceu-se, pegou no filho ao colo e desandou dali. Novembro de 1987.

Eis um gorducho pequinense que se passeava no Jardim Zoológico da capital em Novembro de 1987. A sua farda verde em miniatura do Exército de Libertação era muito popular entre as crianças, tanto rapazes como raparigas. Naqueles anos, a ambição mais comum entre a pequenada era vir a ser soldado do Exército de Libertação. Os tempos mudaram, este garoto é agora um jovem e suspeito que deve ser dono de uma cadeia de restaurantes.

Um passeio com a mãe pelo bairro de Haidian, Pequim, em Abril de 1991. Os chineses, além dos filhos, transportam literalmente tudo em transportes de duas ou três rodas: porcos, camas, armários, molhos de feno...

Topei com este rapazinho no parque do Palácio Xingqing, em Xi'an, província de Shaanxi, Maio de 1988. Em comparação com a maioria das crianças chinesas de então, envergava um farpela muito elegante. O coletinho era engraçado e as calças de fazenda dispensavam qualquer aplicação de bonecada, como era costume ver-se. A sua atitude revelava que estava a imitar os homens que se entretinham a pescar no enorme lago do parque.


"Vá lá, não sejas tímido, deixa a estrangeira fotografar-te!". Templo Louguantai, arredores de Xi'an, Maio de 1988.


Uma gargalhada de alegria no escorrega do Parque do Bambu Púrpura (Zizhuyuan) em Pequim, Outubro de 1987.


As calças das crianças apresentavam uma racha, de maneira a que não necessitassem da ajuda de um adulto para as desapertar em caso de necessidade. Numa aldeia nos arredores de Pequim, em outubro de 1987.


As crianças chinesas não andavam em carrinhos tão confortáveis e luxuosos quanto os das crianças ocidentais. Os seus eram artesanais, feitos de bambu, tábuas e contraplacado - toscos, mas engenhosos. Muitas vezes eram partilhados por vários pequenos passageiros, mas esta campeã, naquele dia de Maio de 1988, em Xi'an, província de Shaanxi, parecia poder usufruir sozinha do seu.

Já com o seu quê de arzinho de comerciante orgulhosa, esta menina de Guangzhou, em Cantão, parece estar a montar guarda aos móveis em exposição no passeio frente à loja da família.
Móveis deste género eram considerados um verdadeiro luxo pela esmagadora maioria dos chineses, custando várias vezes mais do que um salário médio. Fevereiro de 1988.


Estava a visitar o mosteiro Drepung, em Lassa, Tibete, em Julho de 1988, quando este pequeno tibetano se atravessou de repente frente à minha câmara e ofereceu-me o seu melhor sorriso. Deu-mo de graça, espontaneamente. Como muitas crianças tibetanas, tem um aspecto pouco limpo e subnutrido, qualquer coisa de velhinho. Mas ser capaz de sorrir desta maneira é bem possuir um grande tesouro.

Outro menino tibetano, mais sisudo, nem sequer reparou que eu o fotografei. Estudava um sutra budista em pleno Palácio Potala, Lassa, Julho de 1988. Repare-se na maneira tradicional de se imprimirem os sutras, em folhas soltas que se vão movendo de baixo para cima.


Passeando pelo Parque Hua Qin Shi, pela mão de sua mãe. Arredores de Xi'an, Maio de 1988.


O corte de cabelo deste garoto era já bastante raro, mas os filhos de algumas famílias camponesas ainda o adoptavam. Xi'an, Maio de 1988.


Um Pequeno Imperador com um saco de cogumelos. Xi'an, Maio de 1988.


Ao colo da mãe num dia de Maio de 1988, em Xi'an.

Ao colo do avô num dia de Maio de 1988, em Xi'an.

18.11.06



Babamento I. Esta e as fotos seguintes ilustram bem o babamento que os filhos e netos despertavam nos pais e avós chineses. A política do filho único era rigorosa e o rebento era cumulado de mimos e atenções. Chamavam-lhes os xiao huangdi, ou "pequenos imperadores". São estes filhos únicos a força activa da China de hoje. Este bebé, no entanto, era "ilegal". Os pais traziam uma filha pela mão, uma menina triste dos seus sete anos. Incapazes de se libertarem da mentalidade tradicional, preferiram sujeitar-se a uma série de sanções por parte do governo a ficarem sem um filho varão. A sua preferência pelo rapaz era nítida e a presença da menina parecia ser apenas tolerada. Xi'an, Maio de 1988.


Babamento II. Arredores de Xi'an, Maio de 1988.


Babamento III. Xi'an, Maio de 1988.


Babamento IV. Xi'an, Maio de 1988.



Avó e neto gozavam da tarde no Parque do Palácio Xingqing, em Xi'an, naquele dia de Miao de 1988. Na China de então, os avós faziam parte da família e da educação dos netos. Era muito raro alguém ser internado num asilo para idosos. Se um velho ficasse só, não era inédito alguém de outra família acolhê-lo, no caso de não haver avô ou avó em sua casa.


Eis Pulpuli, uma menina cazaque acampada nas Pastagens do Sul, a mais de três horas de autocarro de Urumqi, capital do Turquestão chinês, em Julho de 1990. Como o seu chinês era muito rudimentar, comunicávamos por gestos.

17.11.06



De cabelo claro e feições só levemente mongólicas, são quatro rapazes cazaques do acampamento em volta do Lago Celeste, no Xinjiang (Turquestão chinês), em Julho de 1990. Na veste encardida do da direita podem ler-se dois caracteres: shang, "sobre" e hai, "mar". A cidade "sobre o mar", Xangai, foi unida por linha férrea à longínqua Urumqi, capital do Xinjiang. Daí que grande parte dos produtos à venda neste último provenham de Xangai. É no Xinjiang que vive a maioria dos cazaques chineses.

Outro menino cazaque do acampamento do Lago Celeste, em Julho de 1990. Os cazaques são tradicionalmente grandes cavaleiros. Os rapazes aprendem a montar quando são ainda muito pequenos.

A dormir regaladamente ao ar livre, é o que parece fazer esta bebé Uigur de Turfan (no Xinjiang ou Turquestão chinês) apesar de estar severamente amarrada ao seu berço tradicional por duas grossas faixas bordadas. Os bebés chineses são assim amarrados quando dormem, de modo a evitar que se virem de barriga para baixo, o que poderia sufocá-los.
O bercinho encontrava-se colocado no passeio frente à sua casa. No verão, os Uigures têm o hábito de arrastar os leitos para a rua e dormirem ao relento, evitando desse modo o calor insuportável que se faz sentir no interior das casas. Julho de 1990.

Eis aqui um belo exemplo de uma criança com as feições acentuadamente turcas dos Uigures, os habitantes do Turquestão chinês, no noroeste do país. A pele é muito morena, as sobrancelhas grossas, os olhos só vagamente mongólicos, o nariz comprido e os lábios finos. Na cabeça, colocou o tradicional barrete islâmico, o doppa. Turfan, Xinjiang, Julho de 1990.

Em Maio de 1988, numa aldeia perto do Templo Qinglong, nos arredores de Xi'an, província de Shaanxi, três miúdos chineses, como as crianças em todo o mundo, divertiam-se com as poças de água que a chuva deixara. Armados de guarda-chuvas e botas de borracha, atrasavam-se alegremente a caminho da escola pelas estradas enlameadas.

Quatro Huckleberry Finn de raça mongólica vivem aventuras na beira do lago do Parque do Palácio Xingqing, em Xi'an, província de Shaanxi, em Maio de 1988. Três deles exibem os lenços vermelhos dos Pequenos Pioneiros. No fato de treino do rapazito da frente vêem-se os caracteres zhong, "centro" e guo, "país". "País do Centro" é como os chineses chamam à sua pátria. Claro que nos mapa-mundi que por lá se vendem a China aparece precisamente nessa posição.

Parece que o que realmente divertiu estes três malandrecos de um hutong de Pequim, naquele dia de Março de 1988, foi uma estrangeira que lhes tirou uma foto. Muito mais do que a pistola ou os berlindes.
Os hutong são os antiquíssimos bairros tradicionais da capital, de casinhas baixas e ruelas labirínticas. Muitos deles têm vindo a ser destruídos para dar lugar a prédios e centros comerciais.

Esta foto foi tirada de dentro do comboio de Pequim para Wutaishan, em Junho de 1990. Doze miúdos do campo divertem-se a ver os comboios passar. Note-se a grande uniformidade de roupas, que se acentuava entre as pessoas da província.

Pequim, Templo de Confúcio, Abril de 1988. Sentado sobre um bixi de mármore, um rapaz está embrenhado na leitura de um livro de banda desenhada. O bixi é um dos nove filhos do dragão. Assemelha-se a uma tartaruga gigante e, como se pode ver, uma das suas habilidades é carregar estelas no dorso. Neste templo, outrora, funcionou a Escola Imperial e era aqui que o imperador lia os Clássicos Confucionistas. Agora pode ler-se banda desenhada.

Sob o olhar amoroso da sua jovem mãe, este bebé, Manman, olha para a estrangeira de câmara fotográfica em punho com certa apreensão. Era uma criança espantosamente inteligente e eu mal podia desviar os olhos dele, daí o seu nervosismo. Estávamos dentro do comboio de Urumqi para Lanzhou. Manman e a sua família prosseguiriam viagem até ao fim da linha, em Xangai, na costa chinesa. Xangai era a sua cidade, mas trabalhavam em Urumqi, no Xinjiang. Como acontecera a muitas famílias, não conseguiam vingar em Xangai e, após a construção da via férrea, arranjaram um modo de vida a quatro noites e quatro dias de distância de comboio da sua cidade natal. Neste dia de Agosto de 1990, Manman regressava de férias a Xangai.

Pai e filha em Wutaishan, província de Shanxi, Junho de 1990. O pai alimentava a garota com uma bolacha quando nós chegámos. A filha assustou-se com os estrangeiros e agarrou-se ao casaco do progenitor, que tentaria em vão fazê-la sorrir.

No Palácio Imperial em Pequim, mais um pai a exibir o seu rebento. Este, no entanto, encontrava-se bem camuflado sob várias camadas de roupa que praticamente só lhe deixavam os olhos de fora. Novembro de 1987.

Trata-se da bebé mais pândega que encontrei na vida. Estava no parque do lago Huaqin, nos arredores de Xi'an, província de Shaanxi, em Maio de 1988, acompanhada pelos pais. Quando me viu a aproximar, desatou a gargalhar perdidamente, atirando a cabeça para o lado, do modo como documenta a fotografia. De seguida, mais uma breve olhadela e de novo era acometida por outro ataque de riso. Eu era, sem dúvida, a coisa mais hilariante que ela tinha visto desde que chegara a este mundo.

Uma avó exibe orgulhosamente o seu vigoroso netinho, numa aldeia em Yesanpo, província de Hebei. A pele da camponesa foi tostada pelo sol, devido ao trabalho na terra. As rugas marcavam o seu rosto mas o cabelo, todavia, era ainda bem negro. Talvez fosse bastante mais nova do que aparentava. O bebé trazia os tradicionais sapatinhos de pano bordados. Novembro de 1987.

Cá vai um avozinho todo lesto a empurrar o neto no seu carrinho artesanal. Este traz um acessório: uma cadeirinha articulada. Passou-se a cena em Xi'an, província de Shaanxi, em Maio de 1988.
Repare-se na roupa estendida no passeio, em cordas atadas a troncos de árvores. E, mais atrás, nas letras romanas (inglesas, como insistem em chamá-las os chineses): XASBLQ. Quando cheguei à China, fiquei espantada com a profusão deste tipo de "palavras" ocidentais, completamente ilegíveis. XASBLQ? Acontece que os caracteres que a encimam se lêem Xi An Shi Bei Lin Qu (Bairro da Floresta de Estelas da Cidade de Xi'an). As letras ocidentais são as iniciais de cada um dos caracteres. Mas qual a finalidade? - perguntava eu aos chineses. Respondiam-me sempre que o faziam para que os estrangeiros pudessem compreender!